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UH nº 030/26 – SINDASP marca presença em evento Internacional: WCO Technology Conference & Exhibition, em Abu Dhabi, sinaliza que Brasil está no caminho certo da modernização do comércio exterior

São Paulo, 10 de fevereiro de 2026

SINDASP marca presença em evento Internacional: WCO Technology Conference & Exhibition, em Abu Dhabi, sinaliza que Brasil está no caminho certo da modernização do comércio exterior

O WCO Technology Conference & Exhibition 2026 – Abu Dhabi, realizado no final de janeiro, reuniu autoridades aduaneiras, representantes do setor privado, acadêmicos e líderes em inovação para discutir as mais recentes tecnologias e práticas voltadas ao setor aduaneiro e ao comércio global.

O Evento  se consolidou como o principal fórum internacional dedicado à transformação digital aduaneira, e teve como eixo central a modernização dos sistemas de fronteira com foco em conformidade, segurança, interoperabilidade e uso estruturado de dados. Os debates evidenciaram que o comércio exterior global ainda não ingressou plenamente em um novo estágio digital integrado, porém avança de forma consistente rumo a modelos baseados em dados confiáveis, decisões automatizadas, inteligência artificial aplicada à gestão de risco e integração sistêmica entre atores públicos e privados.

A transformação digital aduaneira deixou de ser uma agenda prospectiva para se consolidar como uma realidade estrutural do comércio internacional.

O SINDASP participou do evento com uma de suas características institucionais mais marcantes: a análise técnica qualificada e a contribuição estratégica para o desenvolvimento do ambiente aduaneiro. Representaram a entidade o presidente Elson Isayama, o diretor de Marketing Institucional Marcelo de Castro e o head da equipe de Projetos Yuri da Cunha, acompanhando debates, apresentações e experiências práticas voltadas à evolução dos sistemas de fronteira.

A participação ocorreu com o objetivo de acompanhar conteúdos estratégicos, mapear tendências regulatórias e tecnológicas, e avaliar impactos potenciais para o comércio exterior brasileiro e para a atuação do Despachante Aduaneiro.

Debate da Infraestrutura Aduaneira – Houve consenso de que dados completos, corretos e tempestivos passaram a ser tratados como a verdadeira infraestrutura das fronteiras modernas. A ausência de qualidade das informações compromete a eficácia de      Ferramentas de inteligência artificial, Sistemas de gestão de risco, Inspeções não intrusivas e Processos de facilitação e controle.

Destacou-se a necessidade de padrões comuns, identificadores consistentes e atualizações quase em tempo real, permitindo que aduanas, operadores logísticos, plataformas digitais e despachantes aduaneiros “falem a mesma linguagem”.

No âmbito da Interoperabilidade e Arquitetura Digital, os Painéis e Tech Talks reforçaram que a modernização aduaneira depende menos de soluções isoladas e mais de arquiteturas interoperáveis, capazes de integrar múltiplos sistemas, jurisdições e atores, evitando silos informacionais e redundâncias operacionais. A interoperabilidade foi apresentada como condição essencial para Redução de assimetrias regulatórias, Aumento da previsibilidade e Fortalecimento da segurança e da conformidade.

Ou tema debatido, os “Passaportes Digitais de Produtos” foram tratados como elemento estrutural da gestão futura de fronteiras, deixando de ser uma iniciativa experimental. Foram abordados sob três perspectivas: Conformidade, com impactos diretos em classificação tarifária, origem e controles sanitários e de segurança; Sustentabilidade, ao integrar dados ambientais e de circularidade e Rastreabilidade ao longo do ciclo de vida, com uso de “fonte única da verdade. Ressaltou-se, contudo, que tais instrumentos só serão efetivos se forem interoperáveis entre países, acessíveis a pequenas e médias empresas e acompanhados de governança clara.

Cooperação Público-Privada – Um dos pontos que vem sendo destaque no Brasil, chamou a atenção de todos no evento: a Cooperação Público-Privada. O evento evidenciou uma mudança relevante de abordagem: a cooperação público-privada foi tratada menos como consulta formal e mais como execução conjunta, incluindo Codesenvolvimento de requisitos de dados, Testes em ambientes controlados (sandboxes) e Compartilhamento bidirecional de informações de risco e operação.

Esse ponto é especialmente relevante para o papel institucional do SINDASP no diálogo contínuo não só com a Receita Federal do Brasil, mas também com todos os Órgãos Intervenientes, além de demais parceiros da cadeia logística em especial nos últimos tempos no Desligamento da DI e implantação da DUIMP.

Receita Federal do Brasil – Casos Institucionais de Destaque foram apresentados no evento. A        Receita Federal do Brasil fez uma apresentação institucional com enfoque na modernização dos controles aduaneiros e no uso de ferramentas digitais para fortalecimento da conformidade e da segurança. Já a U.S. Customs and Border Protection (CBP) trouxe uma exposição sobre comércio eletrônico, revisão de regimes simplificados e reforço da aduana como instrumento central de segurança e integridade do sistema.

As apresentações reforçaram o entendimento de que facilitação e controle não são conceitos opostos, mas complementares quando sustentados por dados confiáveis e governança adequada.

Diálogo Institucional – O SINDASP abriu no evento um Diálogo Institucional com Autoridades dos Emirados Árabes Unidos. Esse momento foi dedicado à aproximação com representantes da Abu Dhabi Customs e a Federal Authority for Identity, Citizenship, Customs and Port Security. O objetivo foi compreender diversas frentes, como a sistemática local de operação aduaneira, a organização dos processos, o uso de ferramentas tecnológicas e o equilíbrio entre facilitação do comércio e controle aduaneiro. A experiência observada reforçou a centralidade da gestão integrada de fronteiras como política de Estado, com forte alinhamento entre tecnologia, governança e estratégia nacional.

Tecnologia, Dados e Cooperação: Lições de Abu Dhabi para os setores público e privado das aduanas

Logo na abertura, o Secretário-Geral da Organização Mundial das Aduanas, Ian Saunders, sintetizou um dos consensos do evento: dados deixaram de ser apenas insumos operacionais e passaram a representar a própria infraestrutura da aduana contemporânea. “Debates como este mostram como as aduanas podem mobilizar inovação para fortalecer fronteiras, facilitar o comércio legítimo e aumentar a resiliência das cadeias globais de suprimento. Esta conferência oferece a oportunidade de descobrir o potencial da inovação para aprimorar operações aduaneiras”, afirmou Saunders

Quatro dimensões foram destacadas como essenciais para o uso estratégico dessas informações: interoperabilidade entre sistemas, capacidade de transformar dados em inteligência operacional, fortalecimento da cyber segurança e escalabilidade das soluções tecnológicas.

O discurso trouxe também um alerta relevante: não basta investir em tecnologia; é necessário experimentar, testar e aprender continuamente. Em um cenário global cada vez mais complexo, soluções rígidas tendem a perder eficácia rapidamente, exigindo modelos adaptativos e evolutivos.

Lição para o setor público: priorizar arquitetura interoperável, governança de dados e segurança cibernética antes de multiplicar sistemas isolados.
Lição para o setor privado: elevar a qualidade informacional na origem (dados, descrições, imagens e documentos) para que a inteligência de risco funcione de forma previsível e auditável.

O desafio da aplicação prática da tecnologia – Embora o avanço tecnológico seja evidente, a conferência demonstrou que a maturidade operacional ainda apresenta desafios. Bashir Adeniyi, da Aduana da Nigéria, trouxe uma reflexão emblemática ao apontar que conceitos fundamentais da integração digital — como o funcionamento de APIs — ainda não são plenamente compreendidos por parte significativa dos profissionais do comércio exterior.

Essa constatação reforça que a transformação digital não é apenas tecnológica, mas também educacional e cultural. O debate ampliou-se para a necessidade de olhar para toda a cadeia logística, incluindo maior responsabilização dos embarcadores e integração entre todos os elos do comércio internacional.

Lição para o setor público: investir em padronização, linguagem comum e capacitação para reduzir assimetrias técnicas entre atores.
Lição para o setor privado: fortalecer competências digitais e operacionais, evitando dependência de “caixas-pretas” e exigindo clareza técnica sobre integrações.

Inteligência artificial: potencial e responsabilidade – A inteligência artificial esteve no centro das discussões, mas com abordagem pragmática. A experiência apresentada pela Aduana do Reino Unido demonstrou que projetos piloto, embora necessários, não podem representar o ponto final das iniciativas. A evolução contínua das ferramentas e o planejamento de médio prazo surgem como elementos fundamentais para garantir resultados consistentes.

Painéis específicos trataram da construção de confiança nas soluções baseadas em IA, destacando princípios que vêm se consolidando globalmente: decisões automatizadas precisam ser explicáveis, auditáveis e supervisionadas por profissionais. A tecnologia, nesse contexto, não substitui o julgamento humano, mas amplia sua capacidade analítica.

Representantes do setor privado apresentaram aplicações promissoras da inteligência artificial em áreas como valoração aduaneira, controles de exportação, regras de origem, classificação fiscal e auditoria. Entretanto, reforçou-se que a elevada complexidade do comércio internacional exige priorização estratégica e implementação gradual dessas soluções.

Lição para o setor público: adotar IA com accountability, auditabilidade e explicabilidade como requisitos mínimos, mantendo o humano como responsável final.
Lição para o setor privado: implementar IA por etapas, com governança e validação, evitando promessas irreais e priorizando aplicações com retorno verificável.

Desafios estruturais e caminhos possíveis – A apresentação da SGS trouxe um diagnóstico abrangente sobre os principais desafios do comércio exterior global: fragmentação de processos, atrasos operacionais, fraudes documentais, inconsistências em classificação e valoração, limitações na gestão de risco e necessidade permanente de capacitação.

Como resposta, destacaram-se quatro facilitadores centrais: automação baseada em dados confiáveis, integração multiagente, controles inteligentes antes da chegada da carga e inteligência analítica aplicada à gestão de riscos. Ficou evidente, contudo, que inteligência artificial isoladamente não resolve problemas estruturais, exigindo integração com governança institucional e capacitação profissional.

Lição para o setor público: reforçar controles inteligentes pré-chegada e integração interagências, com foco em risco e não em volume.
Lição para o setor privado: reduzir vulnerabilidades documentais e elevar padrões internos de conformidade, especialmente em classificação, valoração e rastreabilidade.

Governança de dados e confiança como pilares – Outro tema transversal do evento foi a governança de dados. O economista Piotr Stryszowski apresentou uma síntese que repercutiu ao longo da conferência: dados passaram a ser uma moeda estratégica do comércio global. A combinação de diferentes bases informacionais permite construir narrativas operacionais e antecipar riscos, influenciando decisões e comportamentos econômicos.

Ainda assim, o compartilhamento de dados enfrenta desafios concretos, especialmente na construção de confiança entre os participantes da cadeia logística. Painéis sobre governança reforçaram a necessidade de marcos legais claros, definição de responsabilidades institucionais, programas de capacitação e gestão da mudança. Apesar da digitalização, o elemento humano permanece central para o sucesso das transformações.

Lição para o setor público: estabelecer frameworks legais e operacionais para compartilhamento seguro de dados, com papéis definidos e governança transparente.
Lição para o setor privado: aderir a padrões, respeitar requisitos de integridade e compreender que confiança é construída com consistência e previsibilidade.

Tendências regulatórias e paradoxos do comércio global – O evento também trouxe reflexões sobre o cenário macroeconômico e regulatório. A reforma aduaneira da União Europeia, por exemplo, avança com a criação de hubs de dados e o fortalecimento de uma autoridade aduaneira supranacional, sinalizando novos modelos de governança.

O World Economic Forum apresentou o chamado paradoxo TradeTech: ao mesmo tempo em que o comércio se torna mais conectado digitalmente, cresce a fragmentação regulatória internacional. Soma-se a esse cenário a expectativa de crescimento moderado do comércio mundial em 2026, reforçando a necessidade de ganhos de eficiência sistêmica.

Lição para o setor público: harmonizar requisitos e evitar multiplicação de obrigações incompatíveis entre jurisdições.
Lição para o setor privado: preparar-se para maior exigência regulatória e para ambientes com padrões concorrentes, investindo em compliance e interoperabilidade.

Assinatura de Convênios de Cooperação internacional e capacitação profissional – Além da programação oficial, a participação do SINDASP contribuiu para avanços de natureza institucional na área de capacitação internacional. Destaca-se a formalização de convênios de expansão do programa EduComex com instituições representativas de Moçambique e Angola, voltados ao fortalecimento da formação técnica e do desenvolvimento profissional em comércio exterior, gestão de risco e conformidade aduaneira.

Essas iniciativas ampliam o intercâmbio de conhecimento e contribuem para o fortalecimento institucional do ambiente aduaneiro no espaço da língua portuguesa, promovendo qualificação estruturada e compartilhamento de boas práticas.

Também foram registrados encaminhamentos institucionais correlatos, incluindo iniciativas de cooperação técnica e de capacitação, contatos preliminares com atores do ecossistema internacional e avaliações iniciais sobre possíveis agendas de participação em fóruns especializados, em temas como facilitação, gestão coordenada de fronteiras e instrumentos de trânsito

Considerações finais do SINDASP – As considerações estratégicas para o SINDASP foram observadas neste conjunto de debates, com demonstrações técnicas e diálogos institucionais permitindo registrar as seguintes conclusões objetivas:

            •  O futuro da atividade aduaneira é indissociável da atuação profissional do despachante aduaneiro, dos profissionais da aduana e do fortalecimento institucional das administrações públicas.

            •    A transformação digital exige capacitação contínua, leitura antecipada de riscos e oportunidades e participação ativa do setor privado organizado.

O SINDASP reafirma, assim, sua vocação de atuar de forma técnica, responsável e propositiva, contribuindo para que o Brasil acompanhe as melhores práticas internacionais em matéria de conformidade, segurança e facilitação do comércio.

“Um leitura significativa do Encontro é traduzida no que a  Receita Federal do Brasil mostrou durante o evento, o que temos afirmado ao longo de anos: precisamos mostrar como estamos avançados em vários aspectos, porém o conhecimento adquirido com benchmark em eventos como esse, demonstram que o trabalho não pode parar nunca, caso contrário, perderemos não apenas espaço no contexto de nossas ações, mais importante, perderemos a força no combate ao ilícito e o trabalho para valorização das atividades lícitas em nosso país. Essa é nossa função como Despachantes Aduaneiros. Cobrar, mas apoiar e trabalhar no contexto de nossa função pública para garantir os pilares de um bom processo aduaneiro. Segurança, agilidade, transparência e previsibilidade”, encerrou Elson Isayama, Presidente do SINDASP

Confira as fotos do evento clicando aqui